O que há sob os quilometros de gelo da Antártida.

A verdadeira história foi perdida na “noite dos tempos”. O que as escavações e descobertas científicas irão nos contar?!

Ao assistir o documentário Antártida do Canal History, disponível no YouTube,
me lembrei do Livro “A noite dos tempos” do francês René Barjavel, que li e reli ao longo da vida. O tinha perdido quando me mudei em 91 mas, encontrei um exemplar num sebo local e está até hoje comigo. Muitas descobertas tecnológicas que dispomos, já eram descritas nele em 1968.
A invenção de um tradutor simultâneo, já estava em sua trama, uma década antes do que foi previsto por Douglas Adams em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de 1979.

Título Original: “La Nuit des temps”
Origem: França
Ano de publicação: 1968. Existem exemplares a venda na “Estante Virtual” https://www.estantevirtual.com.br/livros/rene-barjavel/a-noite-dos-tempos/4019524463

“O enredo deste romance é tão absurdo e fascinante quanto à própria realidade”.

Tudo se passa no continente Antártico, onde pesquisadores franceses descobrem um sinal que é emitido das profundezas do solo. Com a ajuda de quase todas as nações da Terra, cria-se uma expedição com os maiores sábios técnicos de diferentes áreas e de todas as partes do mundo e inicia-se uma jornada ao centro do Pólo Sul.

A fantásticos mil metros de profundidade de gelo e rocha, descortina-se aos olhos da humanidade restos de uma civilização muitíssimo mais avançada, congelada a novecentos mil anos. A galeria aberta no gelo conduz a expedição a um abrigo, onde dormem congelados, há 900 mil anos, um homem e uma mulher.

Assim começa a narrativa de um amor apaixonado, que nem mesmo a morte pôde destruir.

Elea e Paikan

A partir daí desenrola-se toda uma trama, na qual se assiste a fraqueza da alma humana, amores impossíveis, traição e desastres atômicos, mostrando a realidade do mundo daquela época, quando a insensatez da corrida armamentista igualou uma sociedade (que se achava) supertecnológica à dos tempos da Pedra lascada.

Atribui-se à René o paradoxo principal de viagens no tempo, quando o viajante altera algo significativo em seu passado, provocando rupturas e inconsistências em todas as linhas de tempo derivadas. René foi o primeiro escritor de ficção-científica a abordar profundamente o assunto e chamou este paradoxo de grandfather paradox (Se você voltar no tempo e matar seu avô para evitar que você nasça, como você seria capaz de voltar no tempo para matar seu avô?). Embora não muito conhecido do grande público, René tem uma série de obras muito relevantes no gênero e vale a pena conhecê-las!

“A Noite dos Tempos” foi publicado em 1968 e conta a estória de uma expedição francesa na Antártida. Abaixo de quilômetros de geleiras e água, a expedição encontra uma cápsula de ouro com dois seres humanos congelados dentro, datados de 900 mil anos atrás, ou seja, “na noite dos tempos”, como sugere um dos cientistas da expedição.

Dentro da cápsula, há um homem e uma mulher. Os eventos são narrados pelo Dr. Simon, que não esconde que se apaixonou pela mulher. Ambos estão nus e mantidos por um complexo sistema de sobrevivência e são mantidos vivos através de uma máscara de ouro. O interior da cápsula é mantido em um frio abaixo do ponto de congelamento, o que dificulta ainda mais seu acesso. Aos poucos, diversos especialistas de vários países são adicionados à expedição, com o objetivo de resgatar com vida os dois seres humanos.

A expedição, liderada pela UNESCO, logo se vê diante de uma batalha global pelos direitos sobre os dois seres. Os governos começam a interferir, querendo obter privilégios e vantagens de uma descoberta capaz de mudar, para sempre, os rumos da Humanidade. Os cientistas logo se posicionam como neutros e decidem não vincular suas pesquisas a nenhum país, e passam a divulgar, gratuitamente, ao vivo e para todo o mundo, todo o andamento das operações.

O primeiro dilema da expedição é decidir qual dos dois seres humanos deveriam acordar primeiro, pois este correria mais riscos de morrer, afinal, nenhum cientista sabia o que estava fazendo naquelas circunstâncias absurdas. Depois de muito debate, eles optam pela mulher – opção acompanhada de uma justificativa misógina: o homem era mais importante e não podiam correr riscos com ele.

“Assim, enquanto a opinião pública se apaixonava, enquanto a metade masculina e a metade feminina da humanidade investiam uma contra a outra, as disputas estouravam em todas as famílias, entre todos os casais, entre os colegiais e estudantes que se entregavam a discussões ferozes, os seis reanimadores decidiram começar pela mulher.” (A Noite dos Tempos, de René Barjavel)

Quando a mulher acorda, os cientistas se vêem diante da dificuldade de comunicação com ela. Ela faz pedidos e perguntas que não são compreendidos por ninguém. Dr. Simon, já apaixonado por ela (apenas por causa de sua beleza) se propõe a construir um mecanismo de tradução simultânea e, quando este é concluído depois dos esforços dos melhores profissionais do mundo, sabemos que a mulher chama-se Eléa e se alimenta através de uma máquina.

A descoberta da máquina cria um novo conflito mundial, pois promete acabar com a fome do mundo: a máquina extrai energia do Universo, transformando-a em esferas comestíveis que provêm todas as necessidades de nutrição de um organismo. Eléa é pressionada a explicar o funcionamento da máquina e da energia universal, mas diz que somente o homem, chamado Coban, sabe. Enquanto os cientistas aceleram o processo de descongelamento de Coban, Eléa começa a relatar como era a vida há 900 mil anos.

Assim, Eléa conta que os indivíduos de sua época habitavam uma Lua e que cada indivíduo estava designado a passar o resto de sua vida com sua “outra metade”, definida no nascimento através de exames genéticos, biológicos e morfológicos. Quando a “outra metade” do indivíduo era encontrada, ambos deveriam permanecer juntos, de preferência em uma relação amorosa que gerasse filhos. Eléa fora designada a Paikan, com quem viveu um romance intenso e profundo.

“— Nem todo o mundo é capaz de ser feliz. Há casais que, simplesmente, não são infelizes. Há aqueles que são felizes e os que são muito felizes. E há alguns que a Designação obteve um sucesso absoluto, e cuja união parece ter começado no início da vida do mundo. Para estes, a palavra felicidade não é suficiente.” (A Noite dos Tempos, de René Barjavel)

Eléa também conta sobre a guerra da Lua, dividida entre duas facções (gonda e enisores) que começaram uma guerra que terminou por destruí-la. Coban, o maior cientista de sua sociedade, foi o criador da fórmula capaz de transformar a energia universal em alimento e, por isso, foi escolhido para ser congelado e perpetuar a sociedade na Terra. Eléa era uma das cinco mulheres escolhidas para o congelamento mas, como as outras quatro mulheres ficaram indisponíveis (por diversos motivos), sobrou apenas ela, que se viu separada para sempre de Paikan.

Barjavel adiciona algumas extrapolações, como Marte ser habitada por seres negros que, posteriormente, teriam vindo para a Terra e iniciado a raça negra aqui. Além disso, a tecnologia futurista inventada por ele é muito criativa e empolgante. A melhor parte da estória é o plot twist no final. Não entrarei em detalhes pois não quero estragar a narrativa com spoilers, mas Barjavel me conquistou com o trecho final do enredo. Inesperado e dramático, foi o ápice perfeito para uma estória muito bem escrita. É uma leitura de ficção-científica que recomendo bastante.” http://perplexidadesilencio.blogspot.com.br/2017/11/sugestao-de-leitura-noite-dos-tempos-de.html

Outro romance de René Barjavel é Devastação. Muito bom livro. Quando vejo pessoas fugindo de seu pais de origem por guerras ou problemas climáticos, sempre lembro dele.

Somos em parte o que vemos, ouvimos, sentimos, lemos, pensamos, percebemos, nos interessamos. Por nós mesmos e pelo que é compartilhado por todos. Além da superfície, além do além.

🤗

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Sobre Jarcy Tania

Professora aposentada, arte-educadora, artista plástica brasileira.
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