Vanitas

 

Observações sobre a morte e nossa passagem pelo mundo visível.

Do pó ao pó.

ciclo-de-vida 

Ontem no final da tarde em Guarulhos – SP, sob um frio de vento polar, fui prestar minha ultima homenagem a minha tia-avó, que era muito querida e amada, chamada de “Zinha” pelos próximos, minha “dinha”.

Pessoa de muita personalidade… ciumenta! Foi casada com meu tio-avô, já falecido e que era meu padrinho de batismo. Eles se separaram a mais de 40 anos, mais ela manteve este elo de ligação comigo, com muito carinho e amizade sincera. Era tia daquelas de fazer quitutes, de cafunés, de cochichos e conselhos, de benzer na chegada e na saída, mesmo nos telefonemas me dava sua benção, tão querida. Ela me adorava  e me disputava nas férias com minha avó (irmã de seu falecido marido), elas se foram, ficaram as receitas, as simpatias, o jeito de ser, dela, as boas lembranças como a de seu sorrisão lindo, as gargalhadas, o modo espalhafatoso de saudar a chegada de qualquer pessoa conhecida. Para mim é como se perdesse outra avó.

Hoje estou amuada e preciso chorar a minha dor do adeus. A velha guarda da família vai se esvaziando. Reflito sobre tempo de vida, o que realmente tem valor, o que é só vaidade. Tudo passa, a saudade fica.

Bom … se bem que ainda tenho uma vovozinha velhinha, de coque e óculos, daquelas de desenho animado pra mimar. Sempre que possível dou uma ida lá, para vê-la e desfrutar de sua companhia, telefono sempre pra saber notícias. Ela não entende por que está vivendo tanto e sua maior dor é ver morrer os amigos, o marido, os filhos e já alguns netos.

vela

Festejemos a vida então! Conhecimento lança luzes ao mundo, não é mesmo?!

 

VANITAS…

(a sua razão!)

O Homem, apregoada maravilha suprema da natureza, não passa, afinal, de um ser finito e limitado, efêmero e passageiro, incompleto. Acabado paradoxo.

O ser mais capaz de gozar plenamente o prazer de viver é, também, (talvez por isso mesmo), o mais carente de vida. Escassa e curta que ela é, manifestamente curta!

O Homem é o único animal de toda a criação que se descobre absolutamente infeliz. E a sua infelicidade resulta, precisamente, da mais-valia da sua condição- a razão, a consciência de si. Fado insuportável!

Criatura Superior(?!), não vive naturalmente só, alegremente apenas, numa felicidade inconsciente, como todos os animais, no seio livre e generoso da natureza, da sua mãe geradora. Não vive feliz, simplesmente, … como todas as demais criaturas. Os seus raros momentos de felicidade plena duram pouco, são fugazes, breves instantes… momentâneas iluminações numa penumbra continuada.

Vive, … mas vive "acompanhado" da consciência cabal da frágil condição da sua existência… macaco nu e desamparado!

Vive, … mas vive revoltado, amargurado, inconformado, perante a impotência de não comandar o seu devir, e, sobretudo, perante a lucidez de visão desolada da (sem) razão última da vida… que vive uma única vez.

Vive, … mas vive dolorosamente o sem-sentido absurdo que retira, pesados todos os momentos, do estranho drama, trágico-cômico, que é a sua vida entre a dos outros, seus iguais em condição.

O homem vive em constante estado de insatisfação existencial, angustiado pela clarividência da sua breve perenidade, amedrontado e inquieto pela consciência do breve fim. É o único animal, do diverso da criação conhecida, com a visão cruel da sua finitude – os seus curtos limites. É a única criatura, depois do big-bang (e antes de outro qualquer cataclismo) com a consciência lúcida, desencantada, desesperada, de que não é mais do que a mera sombra de um sonho alheio… (de alguma ficção suprema, quimera desconhecida!). Ao arrepio da sua grande ambição feita ganância desonesta, vã glória de mandar, … ao arrepio dos seus desvarios de grandezas, impérios a ganhar… puro engano!

O Homem é uma ilusão feita de carne e osso, pequeno formato.

Frágil marioneta de deuses loucos, dramaturgos de uma qualquer peça dum grand-gignol cósmico.

O Homem é uma criatura precária, demasiado precária! Um ser provisório, com termo súbito (mas esperado!). Com apertado prazo de validade!

A sua existência é parca, transitória, pouco duradoura, uma passagem, leve brisa, pelo vale lacrimoso do mundo terreno.

Em direcção certa ao não-ser.

Os seus passado, presente e futuro são a véspera, o hoje e o amanhã duma récita de curta duração: Uma novela biográfica da qual conhece antecipadamente o desenlace… a última página. Escusado desprazer.

O presente passa tão veloz que não parece dar nítida certeza que exista. Os prestes dias que passam a galope no pouco que vive, breve estadia terrena de superfície, fazem dele o louco perdido de sentido, um tonto alienado condenado ao absurdo de um drama que não comanda. Porque o destino imprevisível vence a vontade mais indômita. As contingências da vida não dependem dele, ultrapassam-no.

O seu último destino, futuro fatal, brutal, derradeiro, conclusivo, e anunciado como uma maldição desde o berço, é a morte, voraz predadora. Só ela é definitiva e irreversível – uma ameaçadora entrada no mistério insondável da eternidade.

A morte é a comarca final, enigma ameaçador, porque imensamente desconhecido e inteiramente indecifrável, e por isso efabulado por uma filosofia meta-humana, e ainda assim demasiado humana, melancólica de esperança. A morte provoca uma ontologia amargurada pelo desespero e a mágoa.

Perante a morte, como perante a vida, e o amor, é impossível, imperdoável, incontornável, ficar indiferente. É difícil permanecer incólume ao abeirar desse território terrível de medonho.

A morte marca-nos irremediavelmente, com o trago amargo do desencanto mais lúcido e da revolta mais impotente.

A morte é feita de sucessivas perdas que fazem a enorme angústia omnipresente dos homens, tristes mortais.

Porque o que fica, fica indelevelmente marcado como um lugar incompleto, … magoado de falta, onde a única verdade imediata é o pesado e pungente silêncio do vazio, da perda, da ausência…, do "nunca mais", lamento irreparável pela saudade "dos que vão indo" (à nossa frente!). Porque o que fica é o lugar onde ficamos "mesmo" a sós connosco, e com essa imensa dor humana, indizível de tamanha! E nada temos que nos conforte, nada temos que anule esta angústia que nos fina e nos consome. Nada temos que nos subtraia do mecânico trabalho da ceifeira maldita que nos vai levando uns após os outros.

E a morte é o único e irrepetível momento da existência que é feito de absoluta individualidade. Nascemos acompanhados (pelo menos pela mãe), vivemos sempre com os outros… (mesmo se excluídos os eremitas, … mesmo esses seguiram a vocação solitária depois da experiência do "outro", a mais das vezes por causa dessa própria experiência!)… mas morremos sozinhos. Irremediavelmente!

A morte é também, finalmente, o momento das certezas últimas, ou melhor, da grande e cabal certeza que responde inteiramente ao nosso eterno questionar: quem somos, donde vimos, para onde vamos. O elucidativo momento em que as duas hipóteses absolutamente antagônicas e excluidoras do nosso devir existencial se transformam numa só resposta: – ou matéria que se transforma em matéria (e já não haverá disso consciência, pois ela se irá fundir no todo!); ou um puro espírito que animará um "além", que agora apenas pode ser sonhado pela esperança fabuladora, e nunca afirmado racionalmente, isto é pela vivência esclarecedora e confirmadora da experiência. Tudo ou nada! Deus ou um escuro sem fim! Um paraíso eterno de luz junto de um pai divino que nos abraça no fim… reconfortante quimera, (que bom que fosse verdade!) …ou pó juntando-se ao pó maior da terra.

Certo é haver morte depois da vida, como incerto é haver vida depois da morte.

Certa é a morte de cada homem. Ninguém escapa!

"Animal transcendental" acossado pela revelação de que é pródigo apenas na imensa solidão cósmica e no confirmado abandono da providência (exista ela ou não!), o Homem é um ser condenado "a caminhar a sua vida", pena irreversível, a caminhar sempre para o fim – a morte certa… a hora incerta!

O Homem é pequeno e efêmero. De uma pequenez insignificante. De excessiva finitude. É tudo menos eterno. De ciência certa se sabe que tudo o que é humano e terreno se fina e acaba.. num instante! Na terra nada é eterno, tudo é fogo-fátuo, extinção súbita… ou reconversão, reciclagem! Sucessivos eternos-retornos do nada ao nada! IN TERRIS NIHIL ÆTERNUS EST foi o escrito lapidar, sentença irrefutável, mas também tradução de estado de alma melancólico, patético, pois foi encontrado numa parede de uma casa de Pompeia, grafito nervoso e contudo sereno, talvez escrito por um romano lúcido, iluminado pela hora amarga, em derradeiro instante de verdade, imediatamente anterior à morte intempestiva nas lavas vulcânicas do Vesúvio.

"O Homem não passa de barro, pó, cinza". Eis o juízo edificante que encontramos em todos os textos mais antigos e sagrados das mais diversas comunidades humanas.

Mas a filosofia, a poesia, a arte, virtuosas gnoses, quando veículos da reflexão serena e dasapaixonada sobre a finitude do Homem, ensinam-lhe a sabedoria do desapego sensato das coisas e dos bens de que se rodeia – a elevação moral do despojamento -, e também, lucidez acrescida, a bondade do coração na generosa disposição para a fraternidade. "Estamos todos no mesmo barco, … a mesma sorte; somos iguais marinheiros, … irmãos de navegação!"

A filosofia, a poesia, a arte, ensinam-no a subtrair-se da continuada condição de escravo cego do cansativo existir sóbrio de todos os dias, do rotineiro e constante recomeço de guerras e escaramuças que movemos uns contra os outros, … como se de obrigatória Tarefa de Sísifo se tratasse… outros Caim e Abel danados e amaldiçoados, mil gerações após.

Ensinam-no a escolher entre a idolatria interesseira, de primário hedonismo, que comanda o generalizado fetichismo triunfante, as ganâncias avulsas por mesquinhas colecções de pertences privados, que na essência nada valem, prescindíveis que são, caprichosamente egoístas; e a autêntica e genuína alegria, a inegável satisfação, que se retira da partilha de tudo com todos, do gozo irmanado de todos os bens postos em comum com todos os outros, "terra da cocanha" feita paraíso terreal. "Saudades do futuro" é a feliz expressão que traduz a constante nostalgia do paradigma perdido, a "terra prometida", comarca da abundância final, lenda, ficção, utopia.

Mais de trezentos e cinquenta anos após, mas ainda (e cada vez mais) atualíssima, é a sentença condenatória a esse apego cego pelas materialidades – o monetarismo sacralizado, a prostituta universal que é o dinheiro travestido de supremo bem – feita pela Padre António Vieira: "Os antigos adoravam o bezerro de ouro, os modernos adoram o ouro do bezerro".

Diziam os estóicos latinos, na esteira dos cínicos gregos, de Diógenes: QUI DIVES? – QUI NIHIL CUPIT! QUI PAUPER? – AVARUS! (Quem é rico? – aquele que nada cobiça! Quem é pobre? – o avarento, o ganancioso insatisfeito!)

A contemplação de horizonte poético-filosófico sobre a existência física do Homem, aponta para o desprendimento parcimônico, circunspecto, das coisas de que se rodeia, por mais tentadoras e preciosas que pareçam, tão precárias quanto ele! No extremo, a sabedoria ascética do total despojamento de si! Outra vez mais os estóicos: "Mais vale salvar a alma, mesmo perdendo-se os bens. O mais importante é salvaguardar a integridade do nosso ser mais genuíno, a nossa serenidade do espírito e a dignidade última que a nós próprios devemos".

A fama, vaidade máxima do Homem dura um "ai". Andy Warhol dixit: "15 minutos de fama"… quinze parcos minutos!

É precário tudo o que é humano.

E a filosofia aponta essa precariedade, essa escassez, que nos tabela e iguala inteiramente no fim do caminho. Fama, Glória, Fortuna são deixadas cá… ao pó dos tempos vindouros. (Sótãos desolados… memórias desbotadas, esmaecidas!… ou antigalhas para ostentação dos filhos e dos filhos dos filhos… novos enganos!).

Bens e riquezas são banalidades terrenas, trivialidades, vaidades, apenas! tudo acaba um dia!

Tudo passa… SIC TRANSIT GLORIÆ MUNDI.

Porque um pó, apenas pó, barro, terra, nos volvemos, todos iguais, no fim dos fins!

Acrescente-se, agora, algum alento que ameniza a dureza azeda e cruel destas irrefutáveis verdades, mórbidas e escatológicas que são, a reflexão naturante, panteísta, réstia de moderada satisfação cósmica-de Baruch Spinoza: "Os Homens são os modos finitos da Substância Infinita".

Remate final, andante presto deste retrato da tragédia humana, visto ao modo optimista prudente. Siga-se à letra o lema horaciano: CARPE DIEM (aproveita o dia). Vive o teu dia intensamente! Como se fora o primeiro, ou o último, … o único!

Dá assim um passado vivido ao teu futuro!

Ou como diz o povo, na sua sabedoria inata ancestral: "Goza o teu dia, goza-o bem, que esta vida são dois dias! Goza a vida enquanto és vivo, pois vais ter muito tempo para estar morto!"

 

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Harmen Stennwyck (c.1580-1649) Escola Flamenga, Séc. XVII, Vanitas,
(as Vaidades da Vida Humana), cerca de 1645, 39×51 cm, óleo s/madeira de carvº,
National Gallery, Londres.

+ http://www.ipv.pt/millenium/pers13_4.htm

Sobre Jarcy Tania

Professora, arte-educadora, artista plástica brasileira.
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