“Ler devia ser proibido”

Na revista Veja desta semana, a surpresa em uma coluna do jornalista Gustavo Ioschpe:

"Não é preciso ser psicólogo para imaginar a profunda frustração e humilhação sentidas por uma mãe que, por causa de suas próprias carências, não consegue ajudar o filho a fazer o dever de casa. Tampouco são necessários poderes mediúnicos para imaginar que quem passa por esse tipo de constrangimento relutará em repeti-lo" 

Quando criança e adolescente fui acompanhada bem de perto nos estudos por meus pais. Meus tios, avós, primos, vizinhos, amigos e até mesmo desconhecidos, apresentados por conhecidos como detentores de algum conhecimento, puderam me ajudar a esclarecer dúvidas sobre as tarefas e pontos obscuros em minhas tarefas escolares, em "lições de casa" nas quais meus pais não tinham como ajudar, por desconhecer ou estarem fora de casa trabalhando. Meus pais se importavam com a aparência de meus livros e cadernos, com a caligrafia, com as anotações limpas e em ordem, corrigidas e vistadas pelos professores e suas cobranças fizeram toda a diferença em minha vida.

Todas as pessoas que me esclareceram duvidas, repassaram exercícios, indicaram livros, deram apoio moral, importantíssimo para que seguisse adiante, foram a forma que o meu "núcleo familiar" encontrou para que a sua "falta de conhecimento atualizado" não me impedisse de crescer e obter rendimentos satisfatório na escola. Nunca tiveram a pretensão de criar gênios, no entanto tinham consciência de que estariamos vivendo num mundo "discriminatório e classificatório", onde sorrisos de dentes bem cuidados, pele e cabelos idem, ajudariam mas não garantiriam sucesso pessoal.

Aprendi que ler e ler compreendendo cada frase, procurando em glossários e dicionários, as vezes de outros idiomas, o sentido daquelas palavras, a dar a opinião, afirmar se gosto ou não de determinado assunto, autor, gênero literário somente após "conhece-lo". Lia e leio de tudo, romances, ficção, manuais técnicos, novelas, quadrinhos, biografias, jornais, revistas, livros de bolso, fanzines e atualmente na tela de meu computador (com letras grandes para não cansar os olhos).

Depois de vaguear em diversas empresas, em diversas atividades, resolvi lecionar. Neste mundo "pós-contemporâneo" (se assim pode ser chamado), assumi a tarefa de educar em arte os filhos de pais que trabalham, que não estão atualizados para ajudar meus alunos nas tarefas escolares, como os meus quando criança também não estavam, só que o compromisso de abrir possibilidades e cobrar responsabilidades com os estudos ficou esquecida.

Será humilhação a familia buscar ou indicar outras pessoas para ajudar as crianças nas tarefas e lições?!

Nas reuniões de pais e mestres em que tenho oportunidade de orientar as familias, este é dos pontos altos em nossas conversas. Deixo bem claro que os pais que mais precisam ouvir estes conselhos não estão presentes e que só os que ali estiveram, poderão levar a eles o conteúdo destas reunições, conversando nas igrejas, nos mercadinhos, nas feiras livres, nas esquinas e botequins, a importância de criar bem os filhos, de lhes dar o mínimo de atenção, carinho e principalmente cobrar-lhes responsabilidade sob suas ações.

Se a crise é social, a sociedade é que deve se mobilizar. Já existe a bolsa familia ajudando para que não passem fome, aqui no estado de São Paulo, os alunos ganham todo o material e livros para que possam estudar com certa dignidade, mesmo que de maneira desigual. Faço a minha parte, ensino, escrevo, luto por "qualidade" social, de vida, de dignidade "hoje" in loco. Deixo as estatísticas a longo prazo para os teóricos em suas experiências em foco míope, feitas por profissionais políticos governamentais, eles sabem faze-las muito bem.

Creio que a sociedade, mais que psicólogos para curar-lhes as feridas da falta de satisfação e felicidade 100% com a vida, deveria abrir os olhos e "ver a vida que está vivendo", tendo amor por sí mesma e pela familia, um amor exigente.

Façamos isso, com urgência, estamos voltando ao primitivismo. O ser humano é aquele que domina os seus impulsos, desfruta seus prazeres sem perder-se de si mesmo. Que mundo é este que estamos criando com nossa negligência?!

 

    

Campanha de incentivo à leitura idealizada e produzida por: Deborah Toniolo, Marina Xavier, Julia Brasileiro, Igor Melo, Jader Félix, João Paulo Moura, Luciano Midlej, Marcos Diniz, Paulo Diniz, Filipe Bezerra. (Alunos do 2ºano – turma pp02/2003 – do curso de Publicidade e Propaganda da UNIFACS – Universidade Salvador).

Adaptação do texto de Guiomar Grammon.

Sobre Jarcy Tania

Professora, arte-educadora, artista plástica brasileira.
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