E viva o dia do Saci!

 

 

Halloween dos basbaques


Maurício Kubrusly, 03/11/2003

Você só vale um terço. Todos nós somos Terços. No planeta compra & venda em que vivemos, o negócio está no comando. Portanto, um americano é Inteiro, padrão mundial como referência de valor. E cada um de nós, brasileiros, é Terço. Afinal, precisamos três Reais pra completar um Dólar. Também por isso, óbvio, gostamos de imitar o país do presidente Bush. Inclusive, na Festa do Dias das Bruxas.

“ Só ponho be-bop no meu samba / Quando Tio Sam pegar no tamborim ” – Chiclete com Banana , de Jackson do Pandeiro e Almira Castilho.

O comércio de fantasias, em São Paulo, confirma que o ralouin já representa o segundo maior faturamento do ano. Perde apenas pro carnaval. Que vexame! É verdade que a moda cresce mais nas cidades ricas, como São Paulo e Rio, onde até escolas (entidades responsáveis pela educação – sim, educação!) promoveram festas de ralouin. Abóboras, bruxas, caveirinhas… É possível que o sucesso de Harry Potter tenha pingado fermento no fascínio das histórias de bruxos. Mas a dimensão das festas, neste 2003, foi degradante.

“ Festejar o halloween no Brasil, é coisa de basbaques* ” (Roberto Pompeu de Toledo, em ensaio na Veja , novembro de 1996). Nesses sete anos, o número de basbaques aumentou demais. É a tribo que não diz liquidação, prefere ceile. Que não oferece desconto de 50% e sim, 50% ófi. Tem personal treini, e não instrutor particular. E usa adesivos escritos em inglês nos seus carros. Enquanto isso, no horizonte da decência, grita a voz rascante de Elza Soares: “ Minha pátria é minha língua! ” Na citação – dentro da letra da canção “ Língua ” , faixa de Velô, que Caetano lançou em 1984 – o beabá da identidade nacional: o idioma. O povo que sente vergonha da própria língua já está de joelhos. Filial que imita a matriz é deprimente. E muito triste. Acredita que, caso a cópia seja bem feitinha, ela muda de nacionalidade. Mas Terço nunca vira Inteiro, nem com visto permanente, dupla nacionalidade, viagem com itíqueti (jamais com bilhete eletrônico, claro), ralouin andi souon.

Pausa 1 par pra pingos no iss: a cultura americana é extraordinária. Indispensável buscar o privilégio de conhecer um pouco do melhor que é produzido por lá. Fertiliza a cabeça, abala o coração. O elogio da diversidade cabe aqui também. Mas, sem cópias, subserviência, capachismos.

– Tupi or not tupi, that is the question. Oswald de Andrade logo acende a lanterninha de sua esperteza, e nos guia: Manifesto Antropofágico , maio de 1928, que ele preferiu assinar assim: ano 374 da deglutição do bispo Sardinha. Isso mesmo: engolir o estrangeiro, que se transforma em energia no corpo nacional. Muito diferente de macaquear a festa do ralouin. No manifesto anterior, o Pau Brasil, de 1924, o grande Oswald clamava pela alegria dos que não sabem e descobrem. Nada de cópias.

Ou você imagina que Tio Sam pula fogueira e solta balão, dança frevo, desfila no carnaval e tem toda alegria que existe aqui? (Novamente Oswald, no segundo Manifesto: “ A alegria é a prova dos nove. ” )

Faaala!, Jackson do Pandeiro, enquadra o Tio Sam: “ Quando ele entender que o samba não é rumba / Aí eu vou misturar Miami com Copacabana / Chiclete eu misturo com banana… ”

Enquanto os basbaques brincavam de ralouin, em São Luís do Paraitinga, São Paulo, o Saci dava mais um pulo certeiro. No próprio dia da festa que os americanos importaram da Irlanda, no século 19, tradição dos Celtas, com mais de dois mil anos… no último dia de outubro, aquela pequena cidade comemorou o primeiro Dia do Saci. E chutaram muita abóbora, entre outras molecagens.

Pausa 2 pros pingos no iis: não interessa defender uma tradição imóvel, folclore intocado, nada disso. Todas essas manifestações estão vivas.

Portanto, em transformação, porosas. Quando o sistema pára de evoluir, começa a morrer – lembra?

Fiquemos com o gênio de Jackson do Pandeiro e seu jeito maroto de falar da relação entre o Terço e o Inteiro: “ Eu quero ver o boogie-woogie / De pandeiro e violão / Eu quero ver o Tio Sam, de frigideira / Numa batucada brasileira. ”

* Basbaque – aquele que se admira e se espanta por coisas triviais & aquele que diz ou pratica tolices, segundo o dicionário Houaiss.

 

::Fique Saci:: Visite o site da SOSASI www.sosaci.org

Sobre Jarcy Tania

Professora, arte-educadora, artista plástica brasileira.
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Uma resposta para E viva o dia do Saci!

  1. Jarcy Tania disse:

    Republicou isso em :: Jarcy Tania ::e comentado:

    Ontem estive no lançamento do livro “Reabertura do Inquérito do Saci” do pesquisador Carlos Cavalheiro. Fui incluida nele 😍

    Nosso querido Saci continua vivo, fazendo travessuras e traquinagens. Houve “contação de causos”, renderam-lhe
    homenagens com simplicidade e alegria.

    Vida longa imaginantes!

    😎

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