O brasileiro tem que relembrar muito o seu passado, resgatar o que de melhor havia nele, faze-lo presente, para ter futuro!

SOBRE O PASSADO

O texto que segue é um trecho da entrevista concedida por Nete Pataxó à Bay. Aos poucos iremos publicar todo o corpo deste riquíssimo depoimento sobre a cultura pataxó
Eu mostro sempre para os meninos isto, porque eles perguntam assim: “O que é passado?”
Por exemplo por que tem muitas pessoas que pensam, eu já vi muito este dizer: “Ah! A gente tem que esquecer do passado, tem que lembrar do presente”.
Mas não, pra nós, índios, sempre o passado está no presente porque são coisas assim, vamos supor: teve tempo que os nossos velho, eles viviam à vontade, o mundo era só deles. Um mundo que eles viviam percorrendo de canto a canto sem não ter barreira na frente. Andavam sem medo. Uma coisa que eles tinham medo era de encontrar alguma onça, cobra, essas coisas. Mas as outras barreiras que eu falo são das leis de hoje.
Então é um povo que a gente vivia pra lá. Não que era jogado, mas era um território em que eles viviam só entre eles mesmos. Então era mais fácil de se lhe dar porque aonde ia era só índio e um entendia uns aos outros. Então, não tinha aquilo de ter limite. Eles andavam até onde… Até onde dava para ir eles iam.
E hoje não. O mundo de hoje…
Aí eu faço essa comparação, como que nosso povo vivia em termos de caça, pesca, até mesmo da colheita natural da própria mata, colheita em tudo: em comida, em fruta, enfim, tudo.
Pataxó sempre viviam andando e sempre se dividiram em pequenos grupos, então , por isto que eu falo com eles – os alunos- que o mundo, o passado do nosso povo, sempre está presente porque é um passado que vem da história. E é através do passado que hoje nós estamos aqui.
Então, quer dizer, às vezes, a gente coloca também para os meninos uma história que a gente faz e fala é: “Se os nossos parentes não tivessem tido esse passado bonito, que foi um passado bonito antigamente, né? Depois veio o passado sofrido, que também é um passado que está presente, né?”
Às vezes também eu falo pra eles que é um passado que foi sofrido, mas que também deu muita força pra gente poder lutar pela conquista do que a gente sempre perdeu. E que hoje ele nos dá muita força. Por eles, os Pataxó antigos, não terem a quem recorrer, não tiveram resistência, e hoje nós estamos aqui, de pé, com resistência, passando para nossos filhos…
Então, eu falo assim que foi um passado assim também: quando os portugueses chegaram, obrigaram os índios a falarem o português. A igreja católica também. Vieram os missionários, os padres, essas coisas que eram os portugueses mesmo assim, eram padres, mas eram portuguêses mesmo. Então, assim, veio amansando os índios, mostrando para os índio que não podiam andar nus, não podiam andar pintados, que aquilo era coisa do capeta e não sei o quê…. e foi pondo um monte de coisa, quer dizer, como ali eles não tinham outra saída, então foram se adaptando com aquele jeito daquele povo que ia chegando, e no fim foram se apertando, se apertando, e foi o jeito de ceder. Se cederam: muitos morreram de doença e outros foram matados, então teve isso tudo.
Aí, já novato, assim, por exemplo, assim no meu tempo, tempo do Kanátyo e pra cá, aí já foi outro passado, né? Como que a gente já viveu mais, parece, parece que afastaram aquele bando de português, mas nos deixaram naquele cantinho, nós fomos viver nossa vida lá. Só que foi uma vida melhor do que do nosso povo. Já não teve…por exemplo, assim, nós novos já estávamos dominados, mas um dominado que nós sabíamos como lhe dar com ele. Não teve tanto assim aquele baque. Não teve tanto conflito, quer dizer, eu tinha medo de dizer que eu era índia, onde eu saía, mesmo eu levando minhas coisas pra trocar (essas aulas todas eu dou: como eu vivi, como eu vivia, como é que nós nos mantínhamos na cultura da gente, nós, mesmo meninos caçávamos nossas comidas, nossos pais iam para a roça, então nós saíamos catando aquelas frutas e íamos trocar com peixe, com aqueles pescadores) lá eles perguntavam, muita gente perguntava assim: “Ah! Você é índia?” – Índia não, que lá pra Bahia eles chamam de cabocla. “Você é cabocla?” Aí nós falávamos: “Não!”
Então, quer dizer assim, nós falávamos, mas não tinha como negar: “AH! Você é sim! Vocês tudo tem a cara redonda!”. Aí nos chamavam de cara redonda. Então era uma coisa que também pra gente era um…Ah! Era… pra nós era um massacre, né? Que hoje já tem o nome de “preconceito”, né?
Aí isso vem, vem, vem. Isso é um passado, né? Que hoje, pra nossos filhos (aí eu mostro pra eles assim, que hoje, pra eles…) já é um outro passado. Por exemplo assim, eu ter casado, ter criado meu filho e hoje minhas filhas já têm um outro jeito de vida, de viver, de ser, de falar o que é…
Então, quer dizer, isso tudo a gente vem avaliando, é uma história, mas que a gente avalia ela, né?
Assim, são muita coisas que a gente conversa, a gente se conversa. E hoje já é outro, outra história. Disso tudo que a gente passou, que nossos velhos passaram, vida boa, vida ruim; eu também passei vida boa e vida ruim, hoje nossos filhos não passam tão bem, mas em termos de serem reconhecidos, que seja, aonde a gente chega, a gente tem, não totalmente, o respeito, mas já existe hoje um pouco de respeito pela gente. A gente hoje não tem medo de chegar com nossa pintura, com nossa tanga, com nossos artesanatos, enfim, com nossa pessoa. Aonde chegar já tem um pouco de garantia.
Hoje já teve um avanço muito porque a gente já tem a nossa escola, apesar de antigamente não ser uma escola ruim. Ela era uma escola na beira do fogão à noite no terreiro, com muitos professores velhos ali. Porque a gente sempre fala que os nossos professores, os nossos livros, são nossos velhos. E isso a gente não esquece. E hoje a gente está aqui com essa resistência, já temos nossa escola, dentro da escola, não sei como é que diga, não sei a palavra certa, mas somos os responsáveis, os educadores somos nós mesmos, índios, e dentro ali é um trabalho coletivo que nem um manda mais do que o outro.

Fonte: http://www.letras.ufmg.br/bay/index.htm

Há muito o que se ler sobre os povos nativos brasileiros, visitem:

http://www.inbrapi.org.br/index.php

Sobre Jarcy Tania

Professora, arte-educadora, artista plástica brasileira.
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